Catulle Mendès

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«Reste. N’allume pas la lampe…

Reste. N’allume pas la lampe. Que nos yeux
S’emplissent pour longtemps de ténèbres, et laisse
Tes bruns cheveux verser la pesante mollesse
De leurs ondes sur nos baisers silencieux.
Nous sommes las autant l’un que l’autre. Les cieux
Pleins de soleil nous ont trompés. Le jour nous blesse.
Voluptueusement berçons notre faiblesse
Dans l’océan du soir morne et délicieux.
Lente extase, houleux sommeil exempt de songe,
Le flux funèbre roule et déroule et prolonge
Tes cheveux où mon front se pâme enseveli…
Ô calme soir, qui hais la vie et lui résistes,
Quel long fleuve de paix léthargique et d’oubli
Coule dans les cheveux profonds des brumes tristes.»

«Fica. Não acendas a lâmpada…
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Fica. Não acendas a lâmpada. Que os nossos olhos
Se encham de trevas demoradamente, e deixa
Os teus cabelos negros verterem a pesada moleza
De suas ondas sobre os nossos beijos silenciosos.
Estamos ambos cansados, tu e eu. Iludidos
Pelos céus inundados de sol. Fere-nos o dia.
Embalemos com volúpia a nossa fraqueza
No oceano do entardecer morno e delicioso.
Lento êxtase, sono agitado isento de sonho,
O fluxo fúnebre corre e decorre e prolonga
Os teus cabelos, onde jaz minha fronte pasmada…
Ó tarde serena, que odeias a vida e lhe resistes,
Que longo rio de paz letárgica e esquecimento
Desliza nos cabelos profundos das brumas tristes.»

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Gymnopédies | Gimnopédias

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Oblique et coupant l’ombre un torrent éclatant
Ruisselait en flots d’or sur la dalle polie
Où les atomes d’ambre au feu se miroitant
Mêlaient leur sarabande à la gymnopédie

(J.P. Contamine de Latour)

«Les Gymnopédies sont une très ancienne fête lacédémoniène, célébrée en été, en l’honneur d’Apollon Dromaios; des choeurs de jeunes spartiates nus y exécutaient des danses, accompangés de chants, autour des statues d’Apollon, d’Artémis et de Latone.»
«As Gimnopédias eram uma antiga festa espartana em honra de Apolo, celebrada no verão; nessas festividades coros de jovens espartanos nus executavam certas danças ao ritmo de canções, em redor das estátuas de Apolo, Ártemis e de Leto.»

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A lenda da Iára

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Martha Pawlowna  Schidrowitz

Deitada sobre a branca areia do igarapé, brincando com os matupiris, que lhe passam sobre o corpo meio oculto pela corrente que se dirige para o igapó, uma linda tapuia canta à sombra dos jauarís, sacudindo os longos e negros cabelos, tão negros como os seus grandes olhos.

As flores lilases do mururé formam uma grinalda sobre sua fronde que faz sobressair o sorriso provocador que ondula os lábios finos e rosados. Canta, cantando o exílio, que os ecos repetem pela floresta, e que, quando chega a noite, ressoam nas águas do gigante dos rios.

Cai a noite, as roas e os jasmins saem dos cornos dourados e se espalham pelo horizonte, e ela canta e canta sempre; porém o moço tapuio que passa não se anima a procurar a fonte do igarapé.

Ela canta e ele ouve; porém, comovido, foge repetindo: − «É bela, porém é a morte… é a Iára».

Uma vez a pirassema arrastou-o para longe, a noite o surpreendeu… o lago é grande, os igarapés se cruzam, ele os segue, ora manejando o apucuitaua com uma mão firme, ora impelindo a montaria, apoiando-se nos troncos das árvores, e assim atravessa a floresta, o igapó e o murizal.

De repente um canto o surpreende, uma cabeça sai fora de água, seu sorriso e sua beleza o ofuscam, ele a contempla, deixa cair o iacumá, e esquece assim também o tejupar; não presta atenção senão ao bater do seu coração, e engolfado em seus pensamentos deixa a montaria ir de babuia, não despertando senão quando sentiu sobre a fronte a brisa fresca do Amazonas. (…)

Continua aqui.

Le rayon de lune | O raio de lua

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«Quand il vécut ce que je vais vous dire, Mackam était un jeune homme au cœur bon, à l’esprit rêveur, à la beauté simple. Il souffrait pourtant d’une blessure secrète, d’un désir douloureux qui lui paraissait inguérissable et donnait à son visage, quand il cheminait dans ses songes, une sorte de majesté mélancolique. Il voulait sans cesse savoir. Savoir quoi, il n’aurait pas su dire. Son désir était comme une soif sans nom, une soif qui n’était pas de bouche, mais de cœur. Il lui semblait que sa poitrine en était perpétuellement creusée, asséchée. Il en tombait parfois dans un désespoir inexprimable.
Il fréquentait assidûment la mosquée, mais dans ses prières, ce n’était pas le savoir qu’il désirait. Il les disait pourtant tous les soirs, lisait le Coran, cherchait la paix dans sa sagesse. Il s’y décourageait souvent. En vérité, plus que les paroles sacrées, il goûtait le silence qu’il appelait à voix basse : «le bruit du rien», à l’heure où la lune s’allume dans le ciel.
La lune, il l’aimait d’amitié forte et fidèle. Elle lui avait appris à dépouiller la vie de ses détails inutiles. Quand elle apparaissait, il la contemplait comme une mère parfaite. Sa seule présence simplifiait l’aridité et les obstacles du monde. Ne restait alentour que la pointe de la mosquée, l’ombre noire de la hutte, la courbe pure du chemin, rien d’autre que l’essentiel, et cela plaisait infiniment à Mackam.(…)»
«Quando ele passou por isto que vos vou contar, Mackam era um rapaz de bom coração, um espírito sonhador de singela beleza. No entanto, sofria de um mal secreto, um desejo horrível que parecia não ter cura e dava ao seu rosto, quando se entregava aos seus pensamentos, uma espécie de majestade melancólica. Desejava saber sempre. Saber o quê, isso não saberia dizer. O seu desejo era como uma sede sem nome, uma sede que não vinha da boca, mas do coração. Parecia-lhe que o seu peito era perpetuamente escavado, privado de água. Ao ponto de cair por vezes num desespero inenarrável.
Era um frequentador assíduo da mesquita, mas não era o saber que procurava através das orações. Sem embargo, repetia-as todas as noites, lia o Alcorão, buscava a paz na sua sabedoria. Sentia-se muitas vezes desencorajado. Na verdade, mais do que as palavras sagradas, experimentava o silêncio a que chamava em voz baixa : «o ruído do nada», nessa hora em que a lua se ilumina no céu.
Amava a lua de uma amizade forte e fiel. Ela tinha-lhe ensinado a desembaraçar a vida dos seus detalhes inúteis. Quando ela surgia, contemplava-a como a uma mãe perfeita. A sua presença era o bastante para simplificar a aridez e os obstáculos do mundo. Em seu redor, sobrava apenas a ponta da mesquita, a sombra negra da cabana, a curva pura do caminho, nada para além do essencial, e isso agradava infinitamente a Mackam.(…)»

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(Lire la suite)                                                                                                            (Continua aqui)

Le pilote Thamus | O piloto Tamo

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«Tout le monde sait ce qui arriva au pilote Thamus. Son vaisseau, étant un soir vers de certaines îles de la mer Égée, le vent cessa tout fait. Tous les gens du vaisseau étaient bien éveillés ; la plupart même passaient le temps à boire les uns avec les autres, lorsqu’on entendit tout à coup une voix qui venait des îles, et qui appelait Thamus. Thamus se laissa appeler deux fois sans répondre ; mais à la troisième il répondit. La voix lui commanda que, quand il serait arrivé à un certain lieu, il criât que le grand Pan était mort. Il n’y eut personne qui ne fut saisit de frayeur et d’épouvante. On délibérait si Thamus devait obéir à la voix : mais Thamus conclut que si, quand ils seraient arrivés au lieu marqué, il faisait assez de vent pour passer outre, il ne fallait rien dire ; mais que si un calme les arrêtait là, il fallait s’acquitter de l’ordre qu’il avait reçu. Il ne manqua point d’être surpris d’un calme à cet endroit-là, et aussitôt il se mit à crier de toute sa force que le grand Pan était mort. A peine avait-il cessé de parler, que l’on entendit de tous les côtés des plaintes et des gémissements, comme d’un grand nombre de personnes surprises et affligées de cette nouvelle. Tous ceux qui étaient dans le vaisseau furent témoins de l’aventure. Le bruit s’en répandit en peu de temps jusqu’à Rome, et l’empereur Tibère ayant voulu voir Thamus lui-même, assembla des gens savants dans la théologie païenne, pour apprendre d’eux qui était ce grand Pan ; et il conclut que c’était le fils de Mercure et de Pénélope.»
«Todos sabem o que sucedeu ao piloto Tamo. Quando navegava certa noite para os lados de umas ilhas do mar Egeu, o vento parou de soprar. Todos dentro da embarcação estavam bem despertos; passavam a maior parte do tempo a beber uns com os outros, quando de súbito ouviu-se uma voz que vinha das ilhas, e que clamava por Tamo. Tamo esperou que o chamassem uma segunda vez, e só deu de si à terceira. A voz ordenou-lhe que, ao chegar a determinado sítio, gritasse que o grande Pã morrera. Todos foram tomados de terror e de pânico. Deliberou-se se Tamo devia ou não obedecer à voz: mas Tamo concluiu que, se chegados ao tal lugar, o vento os empurrasse para diante, não diria nada; mas acaso uma calmaria os detivesse, então, obedeceria à ordem recebida. Chegados ao tal sítio foram surpreendidos por uma calmaria, e logo se pôs a gritar com todas as forças: “O grande Pã está morto”. Assim que acabou de falar, de todos os lados cresceram lamúrias e gemidos, como se um grande número de pessoas fosse tomada de surpresa e aflição por esta notícia. Todos os que seguiam na embarcação testemunharam desta aventura. O barulho plangente em pouco tempo espalhou-se até Roma, e o imperador Tibério, desejando encontrar-se pessoalmente com Tamo, reuniu as maiores sumidades em teologia pagã, para que lhe dissessem quem era aquele grande Pã, e concluiu tratar-se do filho de Penélope e Mercúrio.»

Atalante | Atalanta (e os três pomos de ouro)

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«(…) rebelle à tout hymen, Atalante soumettait ses prétendants à une épreuve qui terminait inévitablement par leur mort. Se sachant la plus légère des mortels, elle les engageait à lutter à la course avec elle. La vierge aux pieds agiles leur donnait quelques coudées d’avance ; puis, se mettant à leur poursuite, elle les rejoignait et les perçait de sa lance. Déjà plus d’un héros avait été vaincu et mis à mort. Malgré cela, un nouveau concurrent, Mélanios, vint demander sa main. Favorisé par Aphrodite, protectrice de l’hymen, il avait reçu d’elle trois pommes d’or du jardin des Hespérides. La lutte s’engagea. Mais, quand Mélanios se voyait sur point d’être atteint, le coureur laissait tomber une de ses pommes d’or. Trois fois il eut recours au même stratagème. La beauté de ces fruits séduisait Atalante ; et, en se baissant trois fois pour tous les ramasser, elle perdit du temps, et permit ainsi à Mèlanios d’arriver le premier au terme de la course. Le jeune héros vainqueur la reçut pour épouse.»
«(…)  adversa ao matrimónio, Atalanta submetia os seus pretendentes a um desafio que acabava sempre por levá-los à morte. Sabendo-se a mais ligeira entre os mortais, desafiava-os a uma corrida. A virgem dos pés ágeis dava-lhes alguns côvados de avanço; depois, ia no encalço deles, alcançava-os e trespassava-os com a sua lança. Já mais do que um herói tinha sido vencido e aniquilado. Sem embargo do perigo, um concorrente novo, Melanion, veio pedir a sua mão. Ajudado por Afrodite, protetora dos enlaces, recebera dela três pomos de ouro do jardim das Hespérides. Deu-se início à luta, mas, sempre que Melanion estava prestes a ser alcançado, deixava cair um dos pomos de ouro. Por três vezes repetiu o mesmo estratagema. A beleza dos frutos seduzia Atalanta; e, baixando-se três vezes para os apanhar, a todos, perdeu tempo, permitindo assim que Melanion chegasse em primeiro ao fim da corrida. O jovem herói vencedor recebeu-a por esposa.»

Dactyles | Dáctilos

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«Les Dactyles, ordinairement au nombre de trois, sont des génies industrieux que la légende place tantôt en Crète, tantôt en Phrygie, où ils se rattachent au cycle de Rhéa. Leur rôle musical est multiple: 1º ils ont inventé le rythme dactylique, simple jeu de mots étymologique; 2º ils ont inventé les rythmes musicaux en général. (…) L’activité métalurgique des Dactyles [et liée] à leur découverte musicale: c’est du va et vient mesuré du marteau de forge qu’est né le rythme poétique.»
«Os dáctilos, geralmente em número de três, são génios laboriosos que a lenda situa ora em Creta, ora na Frígia, estando aí associados ao ciclo de Reia. O seu papel musical é múltiplo: 1º inventaram o ritmo dactílico, mero jogo de palavras etimológico; 2º inventaram os ritmos musicais em geral. (…) A actividade metalúrgica dos dáctilos está ligada à sua descoberta musical: é do vaivém compassado do martelo de forja que nasceu o ritmo poético.»

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Plutarque, De la musique.