Demogorgon

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«[Demogorgon] era, dizem os antigos, um velho que morava nas entranhas da Terra, assim dão-lhe um semblante pálido, um corpo cheio de enxovedo, lodo, e limo. Como estivesse enjoado de viver em tão triste morada fez uma pequena bola na qual se assentou, e remontando-se aos ares pôs ao redor da Terra esta abóbada azul, que nós outros chamamos céu. Depois pegou numa pouca de lama combustível e inflamada dos montes Acroceraunios e atirou com ela para o ar, donde se originou o sol: casou este astro com a Terra, e desta união nasceu tudo quanto constitui a admirável organização do universo.

Eis desenvolvido, e posto em ordem, o Caos. Esta mistura de elementos contrários se acha aqui personificada. Atormentado com atrozes dores revolve-se em seu antro o Caos; rasga-o Demogorgon, que é o que dele sai? A discórdia [litígio], a qual vem assentar na Terra morada. Demogorgon não devia lisonjear-se muito com este primeiro parto seu, que de certo não era mui vantajoso para a espécie humana. Tirou depois mais do ventre do Caos o deus Pã, as três Parcas, etc.»

A Mythologia da mocidade, ou, História dos deuses, semideuses e divindades alegóricas da fábula.

 

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Variações de uma fábula 3/3

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(O quadro principal da história desaparece, o elemento secundário ganha força e a lengalenga autonomiza-se)

A formiga e a neve

Uma vez uma formiga, que andava pelos campos, ficou com as perninhas presas na neve.− Ó neve valente que meus pés prende! – exclamou a formiga, e a neve respondeu:
− Sou valente mas o sol me derrete.
A formiga voltou-se para o sol:
− Ó sol valente que derrete a neve que meus pés prende! – e o sol respondeu:
− Sou valente mas a nuvem me esconde.
A formiga voltou-se para a nuvem:
− Ó nuvem valente que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! −  e a nuvem respondeu:
− Sou valente mas o vento me desmancha.
A formiga voltou-se para o vento:
− Ó vento valente que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! – e o vento respondeu:
− Sou valente mas a parede me para.
A formiga voltou-se para a parede:
− Ó parede valente que para o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! −  e a parede respondeu:
− Sou valente mas o rato me fura.
A formiga voltou-se para o rato:
− Ó rato valente que fura a parede que para o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! – e o rato respondeu:
− Sou valente mas o gato me come.
A formiga voltou-se para o gato:
− Ó gato valente que come o rato que fura a parede que para o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! – e o gato respondeu:
− Sou valente mas o cachorro me pega.
A formiga voltou-se para o cachorro:
− Ó cachorro valente que pega o gato que come o rato que fura a parede que para o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! −  e o cachorro respondeu:
− Sou valente mas a onça me devora.
A formiga voltou-se para a onça:
− Ó onça valente que devora o cachorro que pega o gato que come o rato que fura a parede que para o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! −  e a onça respondeu:
− Sou valente mas o homem me caça.
A formiga voltou-se para o homem:
Ó homem valente que caça a onça que devora o cachorro que pega o gato que come o rato que fura a parede que para o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! – e o homem respondeu:
− Sou valente mas Deus pode comigo.
A formiga voltou-se para Deus e disse:
− Ó Deus valente que pode com o homem que caça a onça que devora o cachorro que pega o gato que come o rato que fura a parede que para o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende!
Deus respondeu:
− Formiguinha, acaba com essa história e vai furtar.
É por isso que a formiga vive sempre na maior atividade, furtando, furtando.

In: Histórias de Tia Nastácia de Monteiro Lobato

La Souris métamorphosée en fille métamorphosée… (2/3)

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«La souris métamorphosée en fille
.
Une Souris tomba du bec d’un Chat-Huant:
Je ne l’eusse pas ramassée ;
Mais un Bramin le fit ; je le crois aisément:
Chaque pays a sa pensée.
La Souris était fort froissée :
De cette sorte de prochain
Nous nous soucions peu : mais le peuple bramin
Le traite en frère ; ils ont en tête
Que notre âme au sortir d’un Roi,
Entre dans un ciron, ou dans telle autre bête
Qu’il plaît au Sort. C’est là l’un des points de leur loi.
Pythagore chez eux a puisé ce mystère.
Sur un tel fondement le Bramin crut bien faire
De prier un Sorcier qu’il logeât la Souris
Dans un corps qu’elle eût eu pour hôte au temps jadis.
Le sorcier en fit une fille
De l’âge de quinze ans, et telle, et si gentille,
Que le fils de Priam pour elle aurait tenté
Plus encor qu’il ne fit pour la grecque beauté.
Le Bramin fut surpris de chose si nouvelle.
Il dit à cet objet si doux :
Vous n’avez qu’à choisir ; car chacun est jaloux
De l’honneur d’être votre époux.
– En ce cas je donne, dit-elle,
Ma voix au plus puissant de tous.
– Soleil, s’écria lors le Bramin à genoux,
C’est toi qui seras notre gendre.
– Non, dit-il, ce nuage épais
Est plus puissant que moi, puisqu’il cache mes traits ;
Je vous conseille de le prendre.
– Et bien, dit le Bramin au nuage volant,
Es-tu né pour ma fille ? – Hélas non ; car le vent
Me chasse à son plaisir de contrée en contrée ;
Je n’entreprendrai point sur les droits de Borée.
Le Bramin fâché s’écria :
O vent donc, puisque vent y a,
Viens dans les bras de notre belle.
(…)»

«A rata transmudada em rapariga

Do bico d’um Morcego
Veio ao chão uma Rata:
Eu não a erguera; erguera-a bem um Brâmene
Cada país, cada uso. Achou-se a Rata
Alquebrada do tombo.
De semelhante Próximo
Cuidamos pouco nós. Irmãos os julga
A Brâmene Nação, encasquetada,
Que a alma d’um Rei, que morre,
Num Oução se embetesga,
Ou noutro bicho, qual lho alvitra a sorte.
É artigo da sua Lei. Colheu Pitágoras
Esse mistério, entre eles.
Firme, em tão firme base,
Creo o Brâmene ser muito acertado
Pedir a um feiticeiro, que a alojasse,
No mesmo corpo, a Rata,
Que outrora a hospedara.
Fez dela o Feiticeiro, uma Moçoila,
De quinze anos, e tal, e tão gamenha,
Que, por ela, tentara
Mais de Príamo o Filho,
Que tentou pela Grega Formusura,
O Brâmene pasmou de estranho facto,
E disse ao lindo objecto:
«A bel-prazer escolhe;
Que ser teu esposo cada qual cobiça.
− Nesse caso (disse ela) dou-me esposa
Ao que, entre esses Amantes,
Mais possante se ostente.
«Oh Sol (bradou ajoelhado o Brâmene)
Serás meu genro.»

Sol.

«Não que o Nevoeiro,
Meu brilho encapotando,
Mais que eu é poderoso:
Que o tomes te aconselho.» – Ao Nevoeiro,
Volante, diz o Brâmene: «Nasceste
Para haver-me por sogro?»
«Não, disse o Nevoeiro,
Que o Vento, quando quer, me dá corridas (…)»

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Fábula de La Fontaine e tradução de Filinto Elysio (excertos)

La Souris métamorphosée en fille metamorphosée… variações de uma fábula (1/3)

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«Un moine, dont la prière était habituellement exaucée, se trouvait un jour assis au bord de la mer, lorsque vint à passer un milan tenant dans une de ses serres une petite souris qui lui échappa et tomba près du moine. Celui-ci, touché de compassion pour la souris, la prit, l’enveloppa dans une feuille et l’emporta chez lui. Craignant que ses gens ne missent peu d’empressement à l’élever, il pria son Seigneur de la changer en jeune fille, et aussitôt elle devint une jeune fille douée d’une grande beauté.

Le moine la conduisit auprès de sa femme et dit à celle-ci : «Voici une fille qui m’appartient et je désire que tu la traites comme mon enfant.»
Lorsqu’elle eut atteint l’âge nubile, le moine l’adressa ses paroles : «Ma chère fille, te voilà devenue grande, et il te faut absolument un mari ; choisi donc celui qui te convient, afin que je t’unisse à lui.»
«− Puisque vous me laissez libre de choisir, répondit-elle, je veux pour mari celui qui est le plus puissant dans le monde.»
«− Tu désires peut-être le soleil ?» reprit-il, et il s’en alla trouver le soleil, auquel il dit : «O toi, qui es essentiellement grand, j’ai une fille qui désire avoir pour époux celui qui est le plus puissant dans le monde ; voudrais-tu te marier avec elle ?»
«− Je vais t’indiquer quelqu’un de plus puissant que moi, répondit le soleil ; c’est le nuage qui m’obscurcit, fait pâlir mes rayons et ternit la splendeur de mes feux.»
Le moine se rendit auprès du nuage et lui rapporta les paroles du soleil.
« Et moi, dit le nuage, je vais vous indiquer quelqu’un de plus puissant que moi, allez trouver le vent, qui me pousse à l’orient et à l’occident.»
Le moine alla trouver le vent et lui tint le même discours qu’au nuage, mais le vent lui dit aussi : «Je vais vous indiquer quelqu’un de plus puissant que moi ; c’est le mont que je ne puis remuer.»
Et le moine vint s’adresser au mont, qui lui fit cette réponse : »je vais vous indiquer quelqu’un de plus puissant que moi ; c’est le rat dont je ne puis me défendre quand il me perfore et fait de moi son habitation.»
Enfin, le moine s’en alla dire au rat : «Veux-tu épouser cette jeune fille ?»
− «Et comment le pourrais-je ? s’écria le rat ; mon trou est étroit, et le rat ne s’allie qu’avec la souris.»
Le moine alors pria son seigneur de changer la jeune fille en souris, comme elle était auparavant, et cela au grand contentement de la jeune fille. Aussitôt Dieu la fit revenir à sa première condition, et elle s’enfuit avec le rat.»

«Um monge, cujas preces eram habitualmente ouvidas, encontrava-se certo dia sentado à beira-mar, quando sobrevoou um milhafre segurando nas garras uma rata que deixou cair e foi parar perto dele. Tomado de compaixão pela rata, apanhou-a, embrulhou-a numa folha e levou-a para casa. Receoso de que a gente descurasse a sua educação, rogou a Deus que a metamorfoseasse em rapariga, e de imediato a rata transformou-se numa jovem de grande formosura.

O monge apresentou-a à mulher e disse-lhe : «Recolhi esta rapariga e gostaria que a tratasses como sendo minha filha.»
Assim que a moça alcançou a idade núbil, o monge dirigiu-lhe estas palavras : «Minha querida filha, agora que cresceste, é sensato que te arranjemos um marido ; escolhe pois aquele que te aprouver, para que eu te case com ele.»
«− Pois que me dais a liberdade de escolher, disse ela, escolho para marido aquele que for o mais valente do mundo.»
«− Referes-te talvez ao Sol ?» prosseguiu o monge, e foi procurá-lo, dizendo-lhe : «Ó tu, que és essencialmente grande, tenho uma filha que deseja ter como esposo aquele que é o mais valente do mundo; gostarias de casar-te com ela?»
«− Existe alguém mais valente do que eu, respondeu o Sol ; é a nuvem que me obscurece, faz empalidecer os meus raios e enfraquece o esplendor dos meus fogos.»
O monge foi ter com a nuvem e contou-lhe o que o Sol lhe dissera.
«Existe alguém mais valente do que eu, disse a nuvem, é o vento, que me empurra a oriente e a ocidente.»
O monge foi ter com o vento e repetiu o que dissera à nuvem, mas o vento disse-lhe: «Existe alguém mais valente do que eu; é o monte que eu não consigo mover.»
E o monge dirigiu-se ao monte, que lhe deu esta resposta: «Existe alguém mais valente do que eu; é o rato que me perfura e faz de mim a sua morada sem que eu me consiga defender.»
Finalmente, o monge dirigiu-se ao rato: «Queres casar com esta rapariga?»
− «E como seria isso possível? barafustou ele; a minha toca é estreita, e os ratos casam-se só com os da sua espécie.»
O monge rogou então a Deus que transmudasse a rapariga em rata, como ela era no início, para grande alívio da moça. E logo Deus a fez tornar à sua condição original, e ela fugiu com o rato.»

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in: Calila e Dimna (Fábula XXXIV)

Fable

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I. Fable, nom collectif qui renferme l’histoire théologique, fabuleuse, poétique, et, pour le dire en un mot, toutes les fables de la théologie grecque et romaine. Banier divise la fable, prise collectivement, en fables historiques, philosophiques, allégoriques, morales, mixtes, et fables inventées à plaisir.

− 2. Historiques. D’anciennes histoires mêlées avec plusieurs fictions ; telles sont celles qui parlent des principaux dieux et des héros. Jupiter, Apollon, Bacchus, Hercule, Jason, Achille dont l’histoire est prise dans la vérité. − 3. Philosophiques. Celles que les poètes ont inventées comme des paraboles propres à envelopper les mystères de la philosophie ; comme quand on dit que l’Océan est le père des fleuves, que la Lune épousa l’Air, et devint mère de la Rosée. − 4. Allégoriques. Espèce de parabole qui cachait un sens mystique, comme celle qui est dans Platon, de Porus et de Pénie, ou des richesses et de la pauvreté, d’où naquit l’Amour. − 5. Morales. Inventées pour débiter quelques préceptes propres à régler les mœurs, comme sont les apologues, etc. – 6. Mixtes. C’est-à-dire, mêlées d’allégorie et de morale, et qui n’ont rien d’historique, ou qui, avec un fond historique, font cependant des allusions manifestes ou à la morale ou à la physique ; telles sont celle de Leucothoé changé en arbre qui porte l’encens, et celle de Clytie en tournesol. – 7. Inventées à plaisir. Celles-ci n’ont d’autre but que d’amuser ; telle est la fable de Psyché, et celles qu’on nommait Milésiennes ou Sybaritides.

In: Abrégé de la mythologie universelle, ou dictionnaire de la fable

Para servir de prefácio

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Retrato de António Botto por Abel Manta
«Naquele esmorecer do fim do dia, bateu-me à porta um jovem senhor que eu convidara para a minha casa. A sua cortesia era, de facto, a mais gentil; o seu sorriso era o mais encantador; e a sua amabilidade espontânea prendia de tão fina e correcta… Fiquei a pensar se aquela educação subtilmente esmerada seria, em verdade, tão sólida como parecia. Apesar das minhas dúvidas, concebi um certo plano para ver até onde chegava aquela delicadeza. Depois de o conduzir aos aposentos que lhe destinara, pedi-lhe que quando quisesse viesse ao meu encontro para falarmos um pouco sobre o que mais lhe agradasse. No extenso corredor que ligava o seu quarto à pequena sala para onde me dirigi, a claridade fugira porque a noite descia, e nesse corredor algumas cadeiras em desordem não tinham sido arrumadas pelo meu velho criado Manuel. O simpático e jovem convidado, talvez na sua urgência de acudir a satisfazer, sem demora, o meu pedido de conversa, tropeçou numa cadeira e disse uma palavra feia. Logo a seguir, um pouco mais adiante, tropeçou numa segunda cadeira, e, dando-lhe um pontapé, repetiu a mesma palavra. E tinha perdido o domínio quando me vê no extremo do corredor, sorridente, a fumar um cigarro. Atirei-lhe com este saudar: Ó tu, que não eras tu!: muito me agradaram, crê, as tuas bonitas maneiras. Somente, elas acabam nas pessoas antes de chegarem às coisas. Imagina, caro amigo, o que vão dizer as minhas cadeiras da tua excelsa delicadeza! E a conversa decorreu fria, cortada por silêncios largos. Por fim, despediu-se, e foi-se embora, enquanto eu ficava a dizer: o homem perfeitamente educado, em qualquer momento ou circunstância, mostra a sua educação que, até mesmo sem ele dar por isso, estende às coisas o respeito que mantém pelas pessoas com quem trata. O homem fino levanta um objecto pesado com suavidade e um objecto leve com aprumo. E nessa harmoniosa medida de movimentos manifesta, nitidamente, o seu grau de civilizado.»

Os contos de António Botto.

Carro Caído

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«O negro vinha da Aldeia Velha, servindo de carreiro. O carro tinha muito sebo com carvão nas rodas e chiava como frigideira. Aquilo não se acaba nunca.
Sua Incelência já reparou os ouvidos da gente quando está com as maleitas? Pois é tal e qual.
O carreiro era meu charapim: acudia pelo nome de João, como eu.
Deitou-se nas tábuas, enquanto os bois andavam para diante, com as archatas marejando suor que nem macacheira encroada.
Levavam um sino para a capela de Estremoz. Na vila era povo como abelha, esperando o brônzeo para ser batizado logo.
João de vez em quando acordava e catucava a boiada com a vara de ferrão:
– Eh, Guabiraba! eh, Rompe-Ferro! eh, Manezinho!
Era lua cheia.
Sua Incelência já viu uma moeda de ouro dentro de uma bacia da Flandres? Assim estava a lua lá em cima.
(…)»

É uma das lendas mais antigas e conhecidas no litoral do Estado (de Minas). Denomina mesmo um recanto da lagoa de Estremoz, município do Ceará Mirim, numa curva onde as águas são escuras pela própria profundeza, no fundo dum aclive. E de origem portuguesa.

Em Minas Gerais, no folclore do S. Francisco, conta-se lenda semelhante, o carro de Maria da Cruz, mulher rica que obrigava seus escravos ao trabalho nos dias santos e domingos. Num desses dias, um carro de bois caiu no rio, com carreiro e tudo, e continua cantando, o homem tangendo as juntas, no fundo da água corrente.

Um poeta norte rio-grandense, António Soares de Araújo, fixou a lenda do carro caído com nitidez e fidelidade:

Conta uma antiga lenda: Certo dia,
Por um pobre carreiro transportado,
Ia num carro o sino encomendado
Para a matriz da nova freguesia.

E o boi do carro, a caminhar sofria
Uma sede cruel… Volvendo a um lado,
Vê a lagoa, e avança… Fatigado,
Sobre o carro o carreiro adormecia.

Num canto, o boi penetra… Repentino,
Tomba o carro no abismo traiçoeiro,
Tudo arrastando no fatal destino!

E, desde então, à noite, o caminheiro
Ouve, ao passar ali, dobres de sino,
E uns saudosos gemidos do carreiro…

Lendas Brasileiras
Luís da Câmara Cascudo