A Camões

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Ninguém seus prantos enxugou piedoso,
Em nenhum seio pôde achar abrigo...
Valeu-lhe um escravo, o seu amigo:
- Dai esmola a Camões! - elle dizia.
Homero, Ovídio, Tarso, estranhos cisnes,
Vós que sorvestes do infortúnio a taça,
Vinde depôr as c'roas da desgraça
Aos pés desta agonía!
(...)
Nem mesmo uma inscripção, nem uma pedra...
Recorda o grão cantor... porém calemos...
Silencio! do immortal não profanemos
Com tributos mortais a alta memória;
Camões, grande Camões, foste poeta!
Eu sei que a tua sombra nos perdoa:
Que valem mausuleus ante a coroa
De tua eterna glória?

Soares de Passos
Bellezas de Portugal
(...)
Mas inda um vulto traçarei, ousado,
Na tela infinda d'elevados ceus!
Cobrando alento apontarei um astro!
Talvez a glória!... que sei eu!... um Deus!

Mas um tal astro de fulgor immenso;
Mas esse Deus nas immortais canções;
Mas essa Glória descantando Glórias;
Reduz-se a um nome... Quem será? - Camões!

A. P. Caldas


Verdades

Nasce um robusto talento,
Vence em brilho aos Bernardins!
Voa ingente o pensamento
Do impossível aos confins!
Da pátria, que elle amou tanto,
Lava a deshonra c'o pranto,
Exalta o nome em Camões!
E em miséria se consome,
Morre de sede e de fome,
E tem por nome = Camões=!

Ernesto Marecos
1854

Une fable javanaise | Fábula javanesa

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«Dans des temps très anciens, apparut sur les côtés javanaises une divinité de l’Olympe indien qui se montra aux hommes revêtue d’une écharpe d’une étoffe admirable; méconnue et persécutée par les habitants de ces parages, la divinité disparut, se réfugiant dans les forêts inaccessibles des montagnes, mais en s’éloignant, laissa choir sur les rochers son écharpe céleste qui est devenue le Daun petola. Quand la nouvelle de l’apparition de cette plante miraculeuse commença à se répandre, les habitants des plaines se portèrent en masse vers les montagnes; en présence d’une pareille merveille, ils furent saisis de convoitise et certains, d’une main sacrilège, essayèrent de la transporter dans leur pays, après avoir détruit jusqu’aux dernières plantes qu’ils n’avaient pu emporter des montagnes. Ce sacrilège fut puni; en effet, malgré toutes les peines prises pour conserver le précieux butin, la plante divine dépérit et finit par disparaître, mais la protection de la divinité fit revivre les germes demeurés chez les montagnards.»

Em tempos muito antigos, para os lados da ilha de Java, apareceu aos homens uma divindade do Olimpo indiano envergando uma écharpe feita de um tecido admirável. Desconhecida e perseguida pelos habitantes daquelas paragens, a divindade desapareceu, refugiando-se nas florestas inacessíveis das montanhas, mas, ao afastar-se, deixou cair nos rochedos a sua écharpe celestial que se transformou na Daun petola.  Assim que a notícia do aparecimento desta planta milagrosa se espalhou, os habitantes das planícies acorreram em massa às montanhas. Perante tal maravilha, foram tomados pela avidez, e alguns, com mão sacrílega, tentaram levá-la para o seu país, depois de terem saqueado, até à última, as plantas que não conseguiram apanhar. Este sacrilégio foi punido; na verdade, apesar de todo o trabalho feito para conservar o precioso troféu, a planta divina murchou e acabou por desaparecer, mas a protecção da divindade fez reviver as sementes que permaneceram entre os povos da montanha.

in L’histoire des fleurs, Guyot Lucien et Gibassier Pierre

Ed. PUF

Porque é que a terra não é como o sol e o ar?

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Eu sou o Francisco Mestre

com 80 anos de idade

Que vou dizer uma prosa que eu fiz…

Durante 45 anos tive com a boca calada, que não podia abrir a boca,

Entretive-me a fazer a minha propaganda cá comigo mesmo,

E punha-as cá numa caixinha…

Eu não sei ler nem escrever, sou analfabeto.

Agora, do 25 de Abril para cá tenho tido a liberdade de as dizer.

Portanto vou dizer assim:

«Eu pergunto a qualquer actor que me saiba explicar

Porque é que a terra não é como é o sol e o ar

(…) Todos nascemos, com 9 meses de ventre,

E despois do tempo corrente que diferença fazemos?

Os que trabalhamos não temos, e quem não trabalha tem valor,

Um é escravo outro é senhor sendo tudo a mesma vontade,

Mas porquê esta desigualdade, eu pergunto a qualquer actor?

(…)

Lá por ter muita valia tem que a existência acabar

Quando o sangue paralisar e deixa o coração de bater,

E que diferença é que há no morrer, que me saiba explicar.

O rico pra fazer figura depois de morto vai pr’à montra,

Mas tá gozando a mesma conta dos que estão baixo à sepultura,

Isto é uma verdade pura, como a verdade pura é,

(…)

Pr’a todos rompeu a Aurora

O efeito que produz tudo o que é vivo adora

É de todos não se ignora que assim como o respirar

Tudo a sua luz gozar desde o princípio até ao fim

E porque não é tudo assim, como é o sol e o ar?»

Arquivos da RDP

Signes des temps | Sinais do tempo

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Des noix abondantes, de grosses châtaignes, le départ précoce et massif des canards et des oies sauvages vers le Sud peuvent préssager un mois de décembre rigoureux; de même, la croyance populaire veut que s’il gèle entre le 10 et le 13 novembre, l’hiver sera rude. C’est assez exact, en effet. Si les mouettes s’enfoncent nombreuses et loin à l’intérieur des terres et qu’elles apparaissent dans les villes au début octobre, novembre se montrera tempetueux et décembre risque d’être froid. Si les corbeaux, les corneilles et choucas pénètrent à l’intérieur des villes – ce qui est rare -, les gelées seront fortes.

Nozes abundantes, castanhas volumosas, a debandada precoce e massiva dos patos e gansos selvagens para o sul podem pressagiar um mês de Dezembro rigoroso; igualmente, a crença popular diz que, se gelar entre os dias 10 e 13 de Novembro, o inverno será rigoroso. Isto é bastante exacto, na verdade. Se as gaivotas se dispersarem pelo interior e arribarem às cidades no início de Outubro, Novembro será tempestuoso e Dezembro provavelmente será frio. Se os corvos e as gralhas penetrarem no interior das cidades – o que é raro – as geadas serão severas.

in «La météréologie?» Editions Gérard & Cº, Verviers (Belgique)

Collection Marabout Flash; 1967

Fábula arménia

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Era uma vez um lobo que chacinara muitas ovelhas e levara muitas pessoas às lágrimas. Um dia, por alguma razão desconhecida, ele sentiu um peso na consciência e começou a arrepender-se da vida que levara até então. Por isso, decidiu reformar-se e não matar mais ovelhas.

Quando tomou essa decisão, pediu a um padre para lhe celebrar uma missa de acção de graças. O padre começou a missa, e o lobo ficou na igreja a chorar e a rezar. O padre continuou e continuou. Uma vez que o lobo assassinara muitas ovelhas do próprio padre, ele rezou sinceramente pela reforma do lobo. Subitamente, o lobo olhou pela janela e viu um rebanho de ovelhas a ser conduzido para casa. Começou a ficar inquieto, mas a oração do padre prosseguiu, como se nunca fosse acabar. Por fim, o lobo não conseguiu conter-se mais e gritou:

«Acabe lá com isso padre! Ou então as ovelhas vão-se todas embora e eu fico sem jantar!»

Essentuki Library | Biblioteca de Essentuki

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«When I was under the Bolsheviks last year, I did once considered the future. I was at Essentuki, in the North Caucasus. The Bolsheviks had requisitioned all the books in the place and taken them into the school there. I went to the Comissar and asked him to make me librarian. I had been schoolmaster since the revolution (…). Well, the Comissar didn’t quite know what a librarian was, but I explained to him. He was a simple man and began to be almost frightened on me when I told him that I had written books of my own. So he made me librarian and I put up a big notice on the door saying that this was the «ESSENTUKI SOVIET LIBRARY». My idea was to keep the books safe, without mixing them up, so that when the Bolsheviks went away, they could be given back to their owners. I arranged them nicely, and spent my time reading some of them. Then, one night the Cossacks came and drove the Bolsheviks out. I ran round to the school in spite of the firing and tore down the word “SOVIET”, for fear that the Cossacks came and destroyed everything, and so it read simply «ESSENTUKI LIBRARY». And next day I started to hand the books back to their owners. Not a soul had been to the library all the time, so no harm was done in breaking it up.»

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Quando estive sob o comando dos Bolchevistas no ano passado, considerei uma vez o futuro. Estava em Essentuki, no norte do Cáucaso. Os Bolchevistas haviam requisitado todos os livros do local e levaram-nos para a escola de lá. Fui ter com o Comissário e pedi-lhe que me nomeasse bibliotecário. Desde a revolução que eu era professor (…).
Bem, o Comissário não sabia ao certo o que era um bibliotecário, e eu expliquei-lhe. Como homem simples que era, quase ficou com medo de mim quando eu lhe disse que havia escrito os meus próprios livros. Então nomeou-me bibliotecário e eu coloquei um grande letreiro na porta dizendo que aquela era a « BIBLIOTECA SOVIETE DE ESSENTUKI». A minha ideia era manter os livros a salvo, sem os misturar, para que quando os Bolchevistas fossem embora, pudessem ser devolvidos a seus donos. Arrumei-os muito bem e passei o meu tempo lendo alguns exemplares. Então, certa noite, os Cossacos vieram e expulsaram os Bolchevistas. Corri para a escola apesar dos disparos e rasguei a palavra “SOVIETE”, por receio de que os Cossacos viessem e destruíssem tudo, e por isso agora dizia simplesmente «BIBLIOTECA DE ESSENTUKI». No dia seguinte comecei a devolver os livros aos seus donos. Nem uma alma tinha entrado na biblioteca o tempo todo, por isso não havia nenhum mal em desmantelá-la.»

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Lorsque j’étais sous les Bolcheviks l’année dernière, j’ai considéré une fois l’avenir. J’étais à Essentuki, dans le Caucase du Nord. Les Bolcheviks avaient réquisitionné tous les livres du village et les avaient emmenés à l’école là-bas. Je suis allé voir le Commissaire et lui ai demandé de me nommer bibliothécaire. J’étais instituteur depuis la révolution (…).
Bon, le Commissaire ne savait pas trop ce qu’était un bibliothécaire, mais je lui ai expliqué. C’était un homme simple et il a presque eu peur de moi quand je lui ai dit que j’avais écrit mes propres livres. Alors il m’a nommé bibliothécaire et j’ai mis une grande affiche sur la porte disant que c’était la « BIBLIOTHÈQUE SOVIET D’ESSENTUKI ». Mon idée était de garder les livres en sécurité, sans les mélanger, afin que lorsque les Bolcheviks s’en iraient, ils puissent être rendus à leurs propriétaires. Je les ai bien rangés et j’ai passé mon temps à en lire quelques-uns. Puis, une nuit, les Cosaques sont venus et ont chassé les Bolcheviks. J’ai couru jusqu’à l’école malgré les coups de feu et j’ai arraché le mot « SOVIET », de peur que les Cosaques ne viennent tout détruire, et c’est ainsi qu’il disait simplement « BIBLIOTHÈQUE D’ESSENTUKI ». Et le lendemain, j’ai commencé à rendre les livres à leurs propriétaires. Pas une âme n’avait été à la bibliothèque pendant tout ce temps-là, donc il n’y avait aucun mal à la défaire.»

P. Ouspenski in Letters form Russia

Promenades dans les sphères célestes III

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1. «Quelqu’un ayant raconté, d’après les journaux, le dernier suplice que le roi du Portugal aurait fait subir à l’évèque de Coimbra, le Visionnaire répondit vivement que c’était une erreur et qu’il venait de parler de l’évêque avec le pape récemment décédé (…)»

2. «Outre les langues sacrées qu’il lui fallait savoir pour l’interpretation des saintes Ecritures, Swedenborg ne se souciait plus d’en apprendre d’autres depuis qu’il échangeait si facilement ses idées avec les anges et les ésprits.»

Ibidem

Des voyages dans le ciel austral II | Das viagens no céu austral II

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« Les Esprits de Jupiter ne nous estiment pas trop non plus. Quand je voulais leur dire que sur notre terre il y a des guerres, des pillages et des assaninats, ils se détournaient et refusaient d’écouter. Par une fréquentation de longue durée avec eux, je demerai convaincu qu’ils étaient plus probes que les Esprits de plusieurs autres terres. Leur abord est si doux et si suave qu’il est impossible de l’exprimer. Ils influaient principalement sur ma face et la rendaient gaie et riante. (…). Leurs faces sont aussi plus belles que les nôtres.»

«The Spirits of Jupiter don’t think highly of us either. When I wanted to tell them that in our land there are wars, looting and murder, they turned away and refused to listen. By long-term association with them, I am convinced that they are more trustworthy than the Spirits of many other lands. Their approach is so soft and gentle that it is impossible to express it. They mainly influenced my face and made her cheerful and laughing. (…). Their faces are also more beautiful than ours.»

«Os Espíritos de Júpiter também não têm uma opinião favorável a nosso respeito. Quando eu tentava dizer-lhes que na nossa terra existem guerras, saques e homicídios, eles afastavam-se e recusavam-se a ouvir. Frequentando-os amiúde, cheguei à conclusão de que são mais íntegros que os Espíritos de muitas outras terras. A sua abordagem é tão doce e suave que é impossível expressá-la. Exerciam influência sobre a minha face, tornando-a alegre e sorridente. (…). Os seus rostos também são mais belos que os nossos.»

Des voyages dans le ciel austral | Das viagens no céu austral

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«Du 23 janvier au 11 novembre, il explora six fois Mercure, vingt-troi fois Saturne, deux fois la lune. Il ne se contint pas dans ces limites. Vingt-quatre fois, dans cet espace de temps, il visita des terres situées dans le ciel austral».

M.Matter, E. de Swebenberg ses ecrits, sa vie et sa doctrine, Paris 1863

« De 23 de Janeiro a 11 de Novembro, explorou por seis vezes Mercúrio, vinte e três vezes Saturno, duas vezes a lua. Não se conteve nestes limites. Por vinte e quatro vezes, neste espaço de tempo, visitou terras situadas no céu austral».