Lenda do ermitão (do monte do Pilar)

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(Lenda do ermitão ou de D. Lopa contada por Justino Alão em 1938)

Dona Lopa era, segundo se diz, fidalga oriunda da família dos Lopos de Biscaia e, por consequência, aparentada com D. Mécia Lopes de Haro, mulher de D. Sancho II, à qual a história nega uma inflexível e sã conduta moral.
D. Sancho II foi, como se sabe, o lídimo herdeiro das nobres qualidades guerreiras de seu bisavô, D. Afonso Henriques. Como ele, valente, audacioso e intemerato, conquistou aos mouros várias terras como Elvas, Jerumenha, Serpa, Moura e Mértola, Tavira e Aljezur, isolando os Mouros do Algarve dos de Córdova e Granada, para que deles não recebessem socorros por terra.
Estabelecido o cerco, estava iminente a conquista do Algarve e a indómita bravura do rei não recuaria, decerto, perante os limites do Chança e do Guadiana, pelo que hoje seriam, talvez, mais dilatadas as fronteiras de Portugal naquela região.
Tamanha foi, porém, e tão ardilosa a trama urdida pelos inimigos de D. Sancho, que o arcebispo de Braga, D. João Viegas, e o bispo de Coimbra, D. Tibúrcio, representantes do clero, e Gomes Viegas e Rui Gomes Briteiros, pela nobreza, conseguiram que o Papa, Inocêncio IV, o destronasse e substituísse por seu irmão D. Afonso, o chefe da conspiração a que D. Mécia não era alheia.
Presa esta em Coimbra pelo governador do Castelo de Ourém, Raimundo Viegas de Portocarrero, foi de Ourém enviada para Castela; mas, exilado em Toledo, D. Sancho que se havia deixado seduzir pelo magnetismo fascinador daquela rara beleza, amarando-a ao ferrete da ignominiosa traição conjugal, não mais se avistou com a rainha.
E também D. Lopa, senhora de vastos domínios nesta região, vivendo no solar de que só restam hoje uns raros vestígios na casa do Paço, na Seroa, não gozava de melhor fama na sua reputação. E, segundo a lenda, por vezes o ermitão do Pilar lhe condenava os seus desmandos.
Porém, tanto repugnava ao seu nobre e soberbo orgulho ouvir admoestações do velho ermitão que, satanicamente, deliberou desfazer-se das suas impertinentes visitas.
(Continua aqui)

«Monte do Pilar em Paços de Ferreira, um trecho de maravilha nas sombras do desconhecido» por Justino Alão, Julho de 1938, pág. 19 a 23.

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As senhoras da mantinha de seda

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«Havia uma viúva que tinha um filho aparvalhado. Um dia diz-lhe a mãe:
− Vai à cidade, leva esta barranha de mel, vende-o e traz-me o dinheiro.
O rapaz aceitou a barranha de mel e foi para a cidade. Pelo caminho viu-se perseguido pelas moscas e ele disse:
− Se as senhoras querem comprar o mel, fazemos negócio, mas não me piquem.
As moscas não responderam, e insistiram em não o largar. Então ele despejou o mel sobre uma pedra e disse:
− Aí o têm; despachem-se e venha o dinheiro.
As moscas caíram sobre o mel, e nada de dinheiro.
Então ele zangou-se e disse que se ia queixar à justiça, voltando a casa para vestir o seu fato novo e apresentar-se ao juiz. Logo que chegou a casa, a mãe pediu-lhe o dinheiro do mel.
− Vendi-o a umas senhoras de mantinha de seda, mas não me deram o dinheiro.
− Conheces essas senhoras?
− Conheço-as de vista. Vou queixar-me ao juiz.
Vestiu o seu fato novo e apresentou-se ao juiz perante quem lavrou a sua queixa.
− E quem são essas senhoras? – perguntou o juiz.
− Não lhes sei dizer o nome, mas conheço-as logo que as veja.
− Quando as encontrares atira-lhes uma boa paulada – disse o juiz.
Neste momento pousou na testa do juiz uma mosca. Então o labrego ferrou na testa do juiz uma paulada, dizendo:
− Da primeira estou vingado.»

in Contos Tradicionais Portugueses
Ilustração de Maria Keil

Allô Allô Bonne Année! Bom Ano Novo!

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«Há em Luneville, uma instalação telefónica em condições assaz primitivas. O fio da linha é um fio de ferro galvanizado de 3 milímetros, muito tenso. Está preso a um poste por cima dumas águas furtadas e curva-se em ângulo obtuso sobre a chaminé de tijolos do edifício vizinho afastado duma dezena de metros. A chaminé corresponde naturalmente ao fogão num quarto no primeiro andar da casa. Quando se fala no telefone de uma estação para a outra, não só o receptor fala, e, para se ouvir é preciso aproximar o ouvido, mas – facto inexplicável – a chaminé, onde se curva o fio fala, o fogão fala, e uma pessoa deitada no quarto ouve, da cama, todas as palavras transmitidas ao fio, mais distintamente do que aqueles que, na extremidade da linha, se servem do aparelho receptor.»

O Telephone, de Théodose du Moncel; (Vertido do francês por Ricardo Jorge).

Le paradoxe de Zénon| O paradoxo de Zenão

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«Les êtres sont une pluralité. Zénon démontre rigoureusement que le continu (c’est à dire le divisible à l’infini) ne peut être conçu comme une somme d’éléments indivisibles, suivant le préjugé vulgaire adopté par les pythogariens car, si ces éléments n’ont aucune grandeur, leur somme ne peut en avoir, s’ils ont au contraire une grandeur, comme leur nombre est infini, leur somme serait infinie.»
«Os seres são uma pluralidade. Zenão demonstra com rigor que o contínuo (isto é, o divisível até o infinito) não pode ser concebido como uma soma de elementos indivisíveis, segundo a opinião corrente aceite pelos pitagóricos, na medida em que se os elementos não possuem grandeza, a soma deles também não a pode ter, se, ao invés, não possuem nenhuma grandeza, sendo infinitos, a soma deles seria infinita.»

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Paul Tannery, «Pour l’histoire de la science Hellène de Thales à Empédocle».

ΞΕΝΟΦΩΝ II

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«Xénophon était toujours prêt à sacrifier, dit Diodore. En effet, pendant la période de sa vie où nous pouvons le suivre presque jour par jour, de 401 à 399, le nombre de victimes qu’il immole est incalculable. Au port de Galpé, Xénophon offre trois sacrifices de suite pour savoir si l’on peut partir, les signes sont défavorables. On sacrifie ensuite trois autres fois pour savoir si l’on peut chercher des vivres, les dieux s’y opposent. Xénophon expert, dit Diodore, à découvrir les signes dans les entrailles des victimes, voulait s’établir dans le pays. Ne fait-il par parler ici les dieux comme il veut ? On peut avoir tous les soupçons.»
« Xenofonte estava sempre pronto a sacrificar, diz Diodoro. Com efeito, durante o período da sua vida em que o conseguimos seguir quase dia após dia, de 401 à 399, o número de vítimas imoladas é incalculável. No porto de Gibraltar, Xenofonte oferece três sacrifícios seguidos para saber se podem partir, os sinais são desfavoráveis. Sacrifica mais três vezes para saber se podem ir buscar víveres mas os deuses opõem-se. Xenofonte, perito, no entender Diodoro, em descobrir os sinais nas entranhas das vítimas, queria estabelecer-se em terra. Não faz aqui falar os deuses como lhe apraz? Estamos em crer que sim»

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Paul Tannery, «Pour l’histoire de la science Hellène de Thales à Empédocle».

ΞΕΝΟΦΩΝ I

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«Et ils arrivent sur le mont le cinquième jour : il s’appelait Théchès. A peine les premiers arrivés en eurent-ils atteint le sommet, qu’un grand cri s’éleva. A ce bruit Xénophon et ceux de l’arrière-garde s’imaginèrent que l’ennemi les attaquait aussi en tête, car ils étaient suivis en queue par les gens du pays qu’ils avaient brûlé ; ils en avaient même tué, capturé plusieurs dans une embuscade; ils avaient pris aussi des boucliers, une vingtaine, couverts de cuir de boeuf non tanné, qui avait encore son poil.
Comme les cris grandissaient à mesure qu’on approchait, que les gens qui ne cessaient d’arriver se précipitaient en hâte vers ceux qui ne cessaient de crier, el que la clameur devenait plus retentissante à mesure que grandissait leur nombre, Xénophon jugea qu’il se passait quelque chose qui n’était pas ordinaire; il saute sur son cheval, prend avec lui Lykios et ses cavaliers, s’élance au secours. Et voilà que bientôt ils entendent les soldats qui criaient : ” La mer ! La mer ! ” Le mot volait de bouche en bouche. Tous prennent alors leur élan, même ceux de l’arrière-garde; les attelages couraient, et aussi les chevaux. Quand tout le monde fut arrivé sur le sommet, alors ils s’embrassaient les uns les autres, ils embrassaient aussi les stratèges et les lochages, en pleurant. Et tout à coup, sans qu’on sût qui en avait donné l’ordre, les soldats apportent des pierres et dresse un grand tertre. Ils y accumulent en tas des peaux de boeuf non tannées, des bâtons et les boucliers d’osier qu’ils avaient capturés. Le guide lui-même mettait les boucliers en morceaux et invitait les autres à faire autant. Ensuite les Grecs renvoient ce guide, après lui avoir donné sur la masse commune un cheval, une coupe d’argent, un vêtement perse et dix dariques. Ce qu’il demandait surtout aux soldats, c’étaient leus anneaux et il en reçu d’eux un grand nombre. Il leur montra un village pour y camper et la route qui les mènerait chez les Macrons, puis le soir venu il s’en alla et disparut pendant la nuit.»
«Ao quinto dia chegaram ao monte santo denominado Teches. Os primeiros que subiram ao cimo romperam em grande clamor. Ao ouvi-los, Xenofonte, que estava à retaguarda, supôs que novos inimigos investissem com a testa da coluna. Traziam à perna, com efeito, os habitantes a que tinham incendiado as searas. Já armando-lhes emboscada, as forças da retaguarda haviam matado uns, aprisionado outros, tomando-lhes uns vinte escudos de verga, recobertos de coiro de vaca com o pêlo para fora.
Os gritos aumentavam de intensidade à medida que mais soldados chegavam ao pino do monte. E, chamados por aqueles, outros deitavam para lá a correr, em bandos, singularmente, e mais a assuada recrudesceu. Xenofonte teve de admitir que alguma coisa de extraordinário se passava; montou a cavalo e, fazendo sinal a Lício, lançou-se, seguido do seu esquadrão de ginetes, oiteiro acima, à rédea solta. Não tardou que percebesse as vozes: o mar! o mar! ao passo que os soldados se abraçavam uns aos outros, ébrios de alegria.  Então o resto do exército, infantaria, cavaleiros, trem, deitou a correr em peso para o pino do monte. E à vista do mar sem fim, foi um delírio. Os soldados pulavam, cantavam, punham-se a chorar como crianças. Beijavam os capitães e oficiais, e a exultação não tinha limites. De repente, sem que ninguém desse ordem, cada qual correu a buscar pedras; com elas elevaram um montículo, sobre que depuseram, em guisa de oferenda aos Deuses, muitos coiros de vaca ainda por tanar, bastões e escudos de verga conquistados ao inimigo. O guia, à medida que os gregos ajuntavam estes troféus, ia-os fazendo em bocados e exortava a todos a fazerem o mesmo, para que não tivessem mais préstimo. Ofereceram a este homem, do monte comum, um cavalo, uma taça de prata, uma roupa à persa e dez dáricos. O que mais lhe agradou foram anéis, e muitos soldados deram-lhe os que traziam nos dedos. Ensinou, ainda, aos gregos uma aldeia em que podiam acampar e o caminho que conduzia à terra dos Macrões, e, quando baixou a noite, fez os seus adeuses e despediu. »

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Xenofonte, A retirada dos dez mil, (trad. de Aquilino Ribeiro).

Le Cosmos dans l’Égypte ancienne|O Cosmos no antigo Egipto

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«Au commencement était le Nou, masse liquide primordiale dans laquelle flottaient confondus formes et choses. Lorsque le soleil commença à briller, la terre fut aplanie et les eaux séparées en deux masses distinctes. L’une donna naissance aux fleuves et à l’océan, l’autre, suspendue dans les airs, forma la voûte du ciel, les eaux dans haut, sur lesquelles les astres et les dieux se mirent à flotter. Debout, dans la cabine de sa barque sacrée, la bonne barque des millions d’années, le soleil glisse lentement, guidé et suivi par une armée de dieux secondaires, les Akhimou-Ordou (planètes) et les Akhimou-Sekou (fixes).»
«No princípio era o Nou, massa líquida primordial onde flutuavam indistintamente formas e coisas. Quando o sol principiou a brilhar, a terra foi aplanada e as águas separadas em duas massas distintas. Uma deu origem aos rios e ao oceano, a outra, suspensa nos ares, deu origem à abóbada celeste, as águas de cima, nas quais astros e deuses se puseram a flutuar. Erguido na cabine de sua barca sagrada, essa boa barca com milhares de anos, o sol desliza lentamente, conduzido e acompanhado por um cortejo de deuses secundários, os Akhimou-Ordou (planetas) e os Akhimou-Sekou (estrelas).»

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Maspero, Histoire ancienne des peuples de l’orient.